Fusos horários e horário de verão: reuniões entre cidades

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A primeira parte desta série explicou o UTC, os deslocamentos e o básico do horário de verão; a segunda, como contar dias quando um dia pode ter 23 ou 25 horas. Esta parte trata do lado prático: por que a diferença entre duas cidades muda ao longo do ano, quais países adiantam ou atrasam o relógio e quando, quais horários locais não existem ou acontecem duas vezes, e como escrever, guardar e agendar um horário para que ele caia no momento certo em todo lugar. As datas de 2026 foram calculadas com o banco de dados de fusos horários da IANA, versão 2026e.

Deslocamento, fuso horário e abreviação

Três coisas diferentes costumam ser chamadas de fuso horário. Um deslocamento é um número: UTC−3 significa três horas atrás do UTC. Um fuso horário é um lugar com todas as suas regras: America/Sao_Paulo é UTC−3 o ano todo hoje, mas também registra os anos em que o Brasil tinha horário de verão. Uma abreviação como BRT, CET ou EST é um rótulo curto para um desses deslocamentos, usado na conversa.

As abreviações são as menos confiáveis das três. O próprio banco de dados de fusos horários da IANA avisa que CST significa uma coisa na China e outra na América do Norte, e que IST pode ser Índia, Irlanda ou Israel. Os nomes de fuso, formados por uma região e uma cidade — America/Sao_Paulo, Europe/Lisbon, Asia/Tokyo —, evitam o problema, e usam cidades e não países para que o nome continue correto quando mudam as fronteiras ou as regras.

AbreviaçãoPode significarDeslocamento
CSTCentral Standard Time (Chicago, Cidade do México)UTC−6
CSTChina Standard Time (Xangai, Pequim)UTC+8
CSTCuba Standard Time (Havana)UTC−5
ISTIndia Standard TimeUTC+5:30
ISTIrish Standard Time (Irlanda no verão)UTC+1
ISTIsrael Standard TimeUTC+2

No software, guarde o nome do fuso. Numa mensagem para pessoas, escreva a cidade e o deslocamento: “15:00 no horário de Brasília (UTC−3)” é entendido em qualquer lugar; “15:00 IST”, não.

Um país, vários relógios

Um país não é um fuso horário. O Brasil tem quatro, definidos por um decreto de 1913 alterado pela última vez em 2013: Fernando de Noronha em UTC−2; o Distrito Federal, com Brasília, e a maior parte do país em UTC−3; Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rondônia, Roraima e o leste do Amazonas em UTC−4; Acre e o oeste do Amazonas em UTC−5. Nenhum deles muda o relógio desde 2019.

Portugal tem dois: o continente e a Madeira têm a mesma hora, enquanto os Açores ficam uma hora atrás o ano todo; todos mudam o relógio nos mesmos dias, como explica o instituto meteorológico português IPMA com base no Decreto-Lei 17/96. As Ilhas Canárias também ficam uma hora atrás da Espanha continental. Estados Unidos, Canadá, México, Rússia e Austrália também se estendem por vários fusos.

Fuso horárioOndeJaneiroJulho
America/NoronhaFernando de NoronhaUTC−2UTC−2
America/Sao_PauloBrasília, São Paulo, Rio de JaneiroUTC−3UTC−3
America/ManausManausUTC−4UTC−4
America/Rio_BrancoAcreUTC−5UTC−5
Europe/LisbonPortugal continental e MadeiraUTC+0UTC+1
Atlantic/AzoresAçoresUTC−1UTC+0
Europe/MadridEspanha continentalUTC+1UTC+2
Atlantic/CanaryIlhas CanáriasUTC+0UTC+1

Quem muda o relógio, e quando

Cada país decide se e quando muda o relógio, por isso as datas variam. Em 2026:

OndeAdiantaAtrasaRegra
União Europeia, incluindo Portugal, Espanha, França, Alemanha e Itália29 de março25 de outubroÚltimo domingo de março e de outubro, à 01:00 UTC em todo lugar ao mesmo tempo
Reino Unido29 de março25 de outubroOs mesmos dias e o mesmo horário da UE
Estados Unidos, exceto Havaí e a maior parte do Arizona8 de março1º de novembroSegundo domingo de março e primeiro domingo de novembro, às 2:00 no horário local
Nova Gales do Sul (Sydney), Austrália4 de outubro5 de abrilPrimeiro domingo de outubro e primeiro domingo de abril, às 2:00 no horário local
Brasil——Sem horário de verão desde 2019
Japão, China e Índia——Sem horário de verão

Como a UE muda no mesmo instante em todo lugar, o relógio pula à 1:00 em Lisboa e Londres, mas às 2:00 em Paris, Berlim, Madri e Roma. Nos Estados Unidos cada fuso muda às 2:00 do próprio horário, então a mudança atravessa o país ao longo de várias horas. No hemisfério sul o verão cai no fim do ano, por isso Sydney adianta o relógio em outubro e atrasa em abril.

As próprias regras podem mudar. Em 2018 a Comissão Europeia propôs acabar com a mudança sazonal da hora, e em 2019 o Parlamento Europeu apoiou a proposta, mas o Conselho da UE ainda não fechou sua posição, então a mudança duas vezes por ano continua.

As semanas em que a diferença muda

Quando dois lugares mudam o relógio em datas diferentes, ou só um deles muda, a diferença entre eles se move ao longo do ano. Em 2026, a partir de Brasília e São Paulo:

EntreDiferençaQuando em 2026
São Paulo e Nova York2 horasAté 8 de março e a partir de 1º de novembro
São Paulo e Nova York1 hora8 de março – 1º de novembro
São Paulo e Lisboa3 horasAté 29 de março e a partir de 25 de outubro
São Paulo e Lisboa4 horas29 de março – 25 de outubro
São Paulo e Sydney14 horasAté 5 de abril e a partir de 4 de outubro
São Paulo e Sydney13 horas5 de abril – 4 de outubro

Assim, uma chamada semanal às 10:00 em São Paulo cai às 13:00 em Lisboa no inverno europeu e às 14:00 no verão europeu. Com expediente das 9:00 às 17:00 dos dois lados, a janela comum é de cinco horas (9:00–14:00 em São Paulo) do fim de outubro ao fim de março e de quatro horas (9:00–13:00) no resto do ano. Para quem fala com Nova York, a diferença cai de duas horas para uma de março a novembro.

Horários que não existem e horários que acontecem duas vezes

Na noite em que o relógio é adiantado, uma hora local é pulada; na noite em que é atrasado, uma hora se repete. No Brasil isso não acontece desde 2019, mas acontece nos lugares com que muitos brasileiros trabalham. Em 2026:

O software precisa decidir o que um horário desses significa. O padrão iCalendar usado pelos convites de agenda, a RFC 5545, define uma regra: um horário que não existe é lido com o deslocamento em vigor antes do salto, então 01:30 em Lisboa no dia 29 de março vale 01:30 UTC, que o relógio mostra como 02:30; um horário que acontece duas vezes se refere à primeira vez. Outros programas podem decidir de outro jeito.

Para alarmes, backups e outras tarefas agendadas nesses lugares, evite essas horas ou agende a tarefa em UTC, que não tem saltos nem repetições.

Guardar e enviar um horário futuro

Para algo que já aconteceu — um pagamento, uma linha de log — guarde o instante em UTC ou como timestamp, como explica a primeira parte. Para algo marcado num lugar — uma reunião às 10:00 em São Paulo no próximo janeiro — guarde o horário local e o nome do fuso, e converta só quando precisar mostrar ou comparar. Se você guardar só o instante UTC e o lugar mudar as regras antes da data, a reunião muda de horário.

As regras mudam de fato, muitas vezes com pouco aviso. Só em 2026, Colúmbia Britânica, Alberta, Manitoba e os Territórios do Noroeste, no Canadá, deixaram de mudar o relógio, e o Marrocos voltou ao UTC o ano todo a partir de 20 de setembro; o banco de dados de fusos horários da IANA publicou cinco versões entre março e setembro para acompanhar mudanças como essas. Celulares, navegadores e servidores só ficam sabendo de uma mudança quando seus dados de fusos horários são atualizados, então um aparelho antigo pode continuar mostrando o horário antigo nesses lugares.

A forma com colchetes permite que um programa que conhece o fuso confira se o deslocamento ainda bate com as regras em vigor antes de confiar no horário.

Marcar uma reunião entre fusos horários

Alguns hábitos evitam a maioria dos erros:

A ferramenta Sobreposição de horários para reuniões recebe dois ou três fusos da IANA e o expediente, aplica o horário de verão de cada fuso na data de hoje e lista as horas que servem para todos, em UTC e em cada horário local.

Sobreposição de horários para reuniões

Perguntas frequentes

O Brasil ainda tem horário de verão?

Não. Ele foi extinto pelo Decreto nº 9.772, de abril de 2019, e os quatro fusos horários do Brasil mantêm o mesmo deslocamento o ano todo.

Por que minha reunião com Nova York mudou uma hora?

Porque os Estados Unidos mudam o relógio e o Brasil não. Do segundo domingo de março ao primeiro domingo de novembro, Nova York fica uma hora atrás de Brasília; no resto do ano, duas.

GMT é o mesmo que o horário de Londres?

Só no inverno de lá. Do último domingo de março ao último domingo de outubro, o Reino Unido usa o British Summer Time, UTC+1. O GMT em si nunca muda, e por isso serve de referência.

Uso UTC−3 ou America/Sao_Paulo?

America/Sao_Paulo para tudo o que é futuro ou se repete: o fuso acompanha qualquer mudança de regra, e um deslocamento fixo não. Um deslocamento fixo só é certo para um único instante já definido, como um timestamp.

Por que dois aparelhos mostram horários diferentes para a mesma cidade?

Provavelmente um deles tem dados de fusos horários mais antigos. Lugares que mudaram as regras há pouco tempo, como partes do Canadá e o Marrocos em 2026, só aparecem certos depois da atualização.

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Referências

  1. IANA Time Zone Database
  2. IANA tz database — Theory and pragmatics: time zone names and abbreviations
  3. IANA tz database — NEWS: releases 2026a to 2026e (March–September 2026)
  4. Directive 2000/84/EC on summer-time arrangements (2001)
  5. European Commission — Summertime: the 2018 proposal and its status
  6. The Summer Time Order 2002 (United Kingdom)
  7. Public Law 109-58, Energy Policy Act of 2005, Sec. 110 (August 2005)
  8. Standard Time Act 1987 (New South Wales), section 2A
  9. IPMA — Hora legal: continente, Madeira e Açores (Decreto-Lei n.º 17/96)
  10. Decreto nº 2.784, de 18 de junho de 1913 (texto atualizado) — fusos horários do Brasil
  11. Decreto nº 9.772, de 25 de abril de 2019 — fim do horário de verão no Brasil
  12. RFC 5545 — iCalendar, section 3.3.5 Date-Time (September 2009)
  13. RFC 9557 — Date and Time on the Internet: Timestamps with Additional Information (April 2024)

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